O que sinto acerca do meu corpo




Pensei várias vezes se devia fazer este post. Afinal, isto da autoconfiança demora a conseguir. Mas, talvez por isso mesmo, é importante falar sobre isto. A minha relação com o meu corpo, ou o que me lembro dela, começou quando eu tinha 5 anos. Não fui um bebé magro, nem uma criança magra. Tive fases em que estava mais magrinha e outras que nem tanto. Lembro-me de ir a uma loja com a minha mãe, quando tinha 5 anos, para irmos ver roupa para mim. O dono da loja disse algo de que nunca me esqueci. "Ah, para ela que é fortezinha, se calhar é melhor um tamanho acima". Escusado será dizer que, com o meu belo feitio, nunca mais quis pôr um pé na loja - e não pus - mas aquele comentário marcou-me. Sim, só tinha 5 anos e muitas vezes vejo pais e avós a fazerem comentários destes às crianças, nem lhes passando pela cabeça que estes possam ter algum impacto.

Portanto, a primeira vez que me lembro de me sentir insatisfeita com o meu corpo - ou com a perspetiva dos outros acerca dele - aconteceu há 23 anos. É toda uma vida a tentar aceitar a casa que, inevitavelmente, vou habitar para o resto da vida. Mas já lá vamos. Fiz a minha primeira dieta (combinada com exercício) com 12 anos. Não, não me foi prescrita e em termos de IMC nem sequer devia ter peso a mais, mas sei que queria ser mais magrinha. E fiquei, sem dúvida, ao ponto dos meus colegas repararem na diferença. Tinha mudado de escola e, quando regressei à minha antiga turma, disseram-me que estava mais magra e mais gira.

Mantive o peso alcançado aos 12 anos até aos 15, quando comecei a tomar a pílula. Sim, digam-me o que disserem, eu sei que a pílula tem um impacto direto e bastante notório no meu peso, além de outras consequências, portanto não volto aos contracetivos hormonais. Podia-vos enfastiar com este ciclo de ganhar e perder peso, mas não vale a pena, até porque o cerne da questão não é esse. Mas para terminar este recapitular, tenho de falar da última vez que perdi peso, essa sim mais significativa.

Enquanto estive na faculdade não tinha o estilo de vida mais saudável. E isto é um GRANDE eufemismo. Passava semanas inteiras sem comer fruta, saía muito à noite e bebia como um membro das Tunas, e ia mais vezes ao McDonald's do que devia. Apesar de andar muito e de durante um tempo ter estudado e trabalhado simultaneamente, o que ajudou a manter o excesso de peso longe, quando acabei o curso apercebi-me que tinha de fazer "damage control".



Portanto, aos 24 anos fiz dieta rígida e exercício (corrida) durante três meses - também por minha livre iniciativa - e perdi dez quilos. Parece ótimo e por um lado foi. Por outro lado, perder peso não é nada do que vendem. Não é um fato de gordura que se tira e pronto. Não é isto. É uma transformação que exige muito de nós e que se paga com obsessão, com sacrifício e, infelizmente no meu caso, também  com uma triste relação com a balança e comigo própria.

No ano a seguir a perder os tais dez quilos, pesava-me todos os dias, duas vezes por dia. Durante a semana não havia exceções, NUNCA. Encarava a comida quase como algo pecaminoso (digo quase porque estou longe de ser religiosa), dava-lhe uma carga e um poder absurdos. Lembro-me de ter pesadelos em que voltava ao peso anterior e outros em que estava num sítio cheio de comida (tipo Fábrica de Chocolate do Willy Wonka) e que perdia a cabeça. Nessa época a balança tinha o condão de me estragar o dia, dependendo do número que por lá aparecesse.

Então e como estou hoje? Bem, depois dessa perda de peso, que aconteceu quando tinha 24 anos, consegui manter o peso durante mais de um ano. Nunca o recuperei todo, mas cheguei a ganhar seis quilos, por motivos vários. Deixei de fumar, saí de casa dos meus pais, fiquei desempregada e comecei a tomar a pílula novamente. Pesando os fatores todos, até é um número pequenino. Depois disso, perdi quatro deles e penso que atingi um equilíbrio. Além da perda de peso, fazer dieta restrita durante aquele período ajudou-me a mudar hábitos e também a conhecer o meu corpo. Para mim é normal comer um bife com salada, mas hoje também é normal comer uma bolonhesa porque me apetece (durante a semana ou não).



As dietas têm muito que se lhe diga, é um facto. São de facto a forma mais eficaz de perder peso (sendo ainda mais eficazes com exercício à mistura).  Mas eu não acredito que alguém consiga passar a vida em dieta, a menos que não goste de comer. O que não é de todo o meu caso. Por isso acho que, mais importante do que regimes drásticos, é comprometermo-nos com mudanças consistentes. Beber dois litros de água por dia, fazer algumas refeições sem hidratos, durante um dia da semana não comer carne, o que seja. Desde que não represente um sacrifício maior do que consigamos suportar.

O ridículo disto tudo é que, mesmo na fase em que tinha mais peso, nunca vesti mais do que o 38 (isto vale o que vale, cada vez ligo menos aos números da roupa, mas é só para terem uma referência). Toda a vida me debati com algo que nem sequer é um problema. Não sou magra, sou normal. Visto o 36, tenho rabo, tenho alguma celulite. Por acaso não tenho estrias, mas acho que é genética. Agora já aceito isso tudo, mas lembro-me de ver as revistas da Cosmopolitan quando era adolescente e de achar que tinha de ser assim. Que ainda não estava como devia, que era um projeto do que podia ser, porque eu devia ser como aquelas raparigas. Pernas longas, magérrimas, com cinturas e peles perfeitas. Bullshit.

É por isto que temos de continuar a ter esta conversa. Durante uns anos achei que era uma treta, isto de a Barbie passar a ter vários tamanhos, dos anúncios da Dove com as mulheres reais, de estarmos sempre a falar do mesmo. Agora acho que não, longe disso. Eu estava a ser velho do Restelo, não compreendia o porquê de se questionar os padrões. É óbvio que os devemos questionar, porque estes nem sequer são saudáveis. Mesmo agora, que as curvas voltaram a estar na moda. São curvas e nunca gordura, nem um grama dela onde não é desejada. Continuam a querer-se cinturas impossivelmente finas e pernas magras, mas agora com um rabo e umas mamas absolutamente desproporcionais, estilo Kardashian. Os padrões até podem ter mudado, mas não estão nem um bocadinho mais sensatos.

Nesta procura de fazer as pazes com o meu corpo, dei por mim a ver muita coisa. Durante anos li imensos livros sobre dietas, alguns absurdamente exagerados (como aquele que culpa o glúten de tudo o que é mau), e vi uns quantos documentários, também sobre dietas e perda de peso. Há um ano e picos o meu chip mudou. Percebi que o que tinha de mudar não era o meu peso, mas a minha perceção de mim própria. Por isso comecei a ver outras coisas. Vi duas TED Talks que me marcam, uma com a Iskra Lawrence e outra com a Ashley Graham. Vi também o documentário Embrace.

Nós podemos escolher o que comemos e o que fazemos com o nosso corpo, mas também escolhemos o que dizemos a nós mesmas. Comos nos aceitamos, como nos amamos. É tão importante. Felizmente a sociedade começa a mudar e a não ter só um modelo de beleza mas, convenhamos, o padrão ainda é bastante limitado. Ainda sobre isto da necessidade de haver mais representação, marcaram-me também as palavras da Rupi Kaur (quem não conhece esta poetisa, não sabe o que anda a perder):


representation
is vital
otherwise the butterfly
surrounded by a group of moths
unable to see itself
will keep trying to become the moth

representation - rupi kaur


Acho que hoje já me alonguei que chegue (o que talvez compense um bocadinho o facto de me ter atrasado no primeiro post a sério). Mas, basicamente é isto. Esta é a vantagem de estar perto dos 30. Acho que começo a conhecer-me, a perceber o que é importante e a valorizar-me. E também a aproveitar a juventude, que não dura para sempre e que é do caraças, com menos quilos ou mais.




O que tenho vestido:

Camisa - H&M
Calções - H&M
Sandálias - Pull&Bear
Óculos - Ray-Ban
Colares - Ginger e Florence da CINCO

0 Comentários