Conto contigo, 2016

12:41:00 Inês de Almeida 0 Comments


Não tenho resoluções novas para este ano. Tenho metas que espero ver concretizadas, tenho vários (imensos) desejos na bucket list, mas não gosto de traçar o limite temporal do novo ano. É tão credível como quando em Setembro, no começo das aulas, prometia a mim mesma que ia passar a estudar todos os dias. Alguma vez aconteceu? Acho que já sabem a resposta. 

Mas bom, gostava que este ano trouxesse consigo algumas mudanças. A saber:

- Uma comunicação social mais credível, mais eficaz e não o chorrilho de notícias empoladas que se vê online, feitas propositadamente para serem partilhadas, com cabeçalhos sensacionalistas que tanto ficam a dever à verdade. Noto que o jornalismo, que valoriza cada vez mais o imediatismo da informação, tem vindo a perder rigor e qualidade. O que também se correlaciona, certamente, com o desinvestimento contínuo que tem sido feito na área. É uma pena, porque o quarto poder condiciona a opinião pública, e isso é uma grande responsabilidade.

- De sermos todos Charlies, porque era moda, passámos para reguladores do humor. Por motivos pessoais estou mais próxima da área do que alguma vez estive, mas se ganhasse um euro por cada vez que ouvi falar de limites do humor ao longo deste ano, ia jantar fora todos os dias durante uma semana. Os limites do humor são os mesmos de qualquer outro ramo artístico: os limites do nosso gosto. Que, espantem-se!, não podem ser impostos aos artistas. Ou vão dizer ao Tony Carreira que devia acabar com a carreira porque o estilo dele não vos agrada? Também pensei que não. No humor as regras são as mesmas. O objectivo é divertir, entreter e, às vezes, fazer pensar. Se a página de um humorista vos dá a volta ao estômago, claramente não está a cumprir a sua função. A opção é só uma: deixar de seguir. Que é o que eu faço com tudo o que não gosto. Ah, e é tanta coisa.

- Gente que descobriu o admirável mundo novo do fitness e quer evangelizar o resto da malta, isto é para vocês. Depois da faculdade, em que comia francamente mal e tinha mais uns quantos quilos do que agora, mudei drasticamente de hábitos. Interessei-me por nutrição e modifiquei a minha forma de ver a comida. Também comecei a dar outra importância ao exercício físico. É uma boa mudança, para quem valoriza a sua saúde e aspecto físico, e acho que a dada altura todos devíamos ter esse tipo de preocupações. Mas e há aqui um grande MAS, não têm de passar para o outro extremo, que significa:

a) Colocarem fotos todos suados com a indicação dos quilómetros que percorreram no rodapé.
b) Tirarem fotos a cada prato desinteressante que vos passa pela boquinha.
c) Congratularem-se numa base diária da vossa determinação e do vosso rabo (não estão a salvar o mundo - estão a fazer squats).

Gostava muito, mas muito que esta vaga acalmasse em 2016. Que as pessoas mantenham os bons hábitos, mas que parem de os apregoar.

- A situação laboral neste país especialmente para a malta da minha idade também é algo que urge mudar. Tornou-se prática comum achar que ter trabalho na área para a qual nos formámos é uma bênção tal, que pagar está quieto. Mexe-me tanto com os nervos ver anúncios para estágios curriculares (que não são estágios curriculares, porque não se inserem num currículo académico) com imensas exigências e pagamento é mentira. Que, caso a pessoa seja especial de corrida, com sorte ainda vai para estágio profissional. O que é isto? E porque aceitamos trabalhar de borla? Foi para isso que os nossos pais se andaram a sacrificar para pagar as propinas da faculdade? Prefiro ir lavar chão. A lei do trabalho cada vez significa menos e quanto mais as pessoas se sujeitam, pior fica o mercado. Há sempre a velha máxima 'se eu não aceitar, tenho uma fila atrás de mim que aceita'. Trabalho gratuito? Então força, podem seguir.

- Outra coisa que podia ficar em 2015, mas que certamente se vai arrastar pelos próximos 30 anos, quiçá para sempre: o culto do mau. O que é que vinga em Portugal? Correio da Manhã, Casa dos Segredos, Quim Barreiros. Ok, não é só isto, obviamente. Mas se toda a gente afirma que a Casa dos Segredos é horrível, quem é que dá audiências ao programa? E se é horrível, porque vêem? Gostam de ver coisas horríveis, de se sentir incomodados? Ou gostam mesmo daquilo, aumenta o vosso ego ver tanto azeite, burrice e falta de classe? É que se for esse o caso, pelo menos assumam. 

- Pseudo-feministas, estou cheia de vos ouvir! A nova vaga de feministas tem feito tanto pelas mulheres como a maioria dos sindicatos faz pelos trabalhadores: praticamente nada. Ora reclamam que querem libertar os mamilos nas redes sociais (então e pénis, porque não?), ora andam com sangue da menstruação à mostra para dignificar a condição da mulher, ora querem mulheres gordas em anúncios de lingerie! É patético. Que me falem em desigualdades de salários, na mutilação genital feminina, no diferente acesso à escolaridade está bem. Isso é feminismo! Isso são questões que, infelizmente, ainda hoje estão por resolver em tantos países. Agora muito deste histerismo não se prende com estas questões, mas outras "lutas" sem jeito nenhum. Ocultar a menstruação não é um atentado à condição da mulher, mas sim uma questão de higiene e decoro. Isto parece-me tão básico que nem sei como gera discussão. Temos problemas tão sérios no mundo e perdemos tanto tempo com merdices.

2016, conto contigo para acabares com isto! Ou então é melhor voltar para as clássicas resoluções, pelo menos essas só dependem de mim.

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