O dia em que deixei de fumar

18:40:00 Inês de Almeida 14 Comments


Faz hoje seis meses que fumei o meu último cigarro. Nessa altura não sabia que era o último, nem tão pouco tencionava deixar de fumar nos tempos mais próximos. Já fumava há dez anos e perdi a conta ao número de vezes que prometi que ia deixar de o fazer. Houve alguns interregnos pelo meio. Pouco tempo depois de ter começado, achei que devia parar e fi-lo, de facto, por quase um ano. E depois, mais tarde, também interrompi o hábito durante uns meses em que estive doente. Mas a vontade de fumar continuava lá e a decisão de deixar não estava cimentada.

Na realidade deixei de fumar exactamente como preconizava. Não foi planeado. Um dia acordei, depois de uns dias de festas e copos, com uma ressaca tamanha e aquela sensação indefinível de quem abusou do tabaco na noite anterior. Decidi que nesse dia não tocava num cigarro. Nem sequer me apetecia. Estranhamente no dia a seguir também não, por isso deixei o maço em casa e fui trabalhar. No caminho para casa comecei a pensar que podia aproveitar a deixa, podia simplesmente nunca mais fumar a partir desse momento. Era só querer. Só dependia de mim não voltar a pegar num cigarro.

Dito assim parece fácil e não é. Para ser sincera, é horrível e muitas vezes pensei 'bolas, que decisão idiota, Inês, estavas tão bem'. Quem não é nem nunca foi fumador não compreende. Acha que só há aspectos positivos em deixar de fumar e não entende o porquê de alguém o fazer. Logicamente concordo. Mesmo quando fumava e afirmava convictamente que não pretendia deixar de o fazer nos tempos mais próximos, sabia que era estúpido estar a pagar para me matar. Mas bolas, sabia bem! E esse às vezes é o argumento mais forte, o do prazer imediato. 

Mas bom, voltando ao início da história. De facto larguei o tabaco assim, de repente. Instalei uma aplicação (que aconselho vivamente para quem pretender fazer o mesmo - chama-se Quit It) que monitorizava tudo. Basta inserir o preço do maço do tabaco que se fuma e a quantidade de cigarros que, em média, se consome por dia e a máquina calcula tudo. Os cigarros que não se fumaram (a partir da data em que se deixou) e o dinheiro poupado, assim como as melhorias que se vai tendo a nível de saúde. A minha aplicação hoje regista os seguintes resultados:

6 meses, 5 horas e 20 minutos

Poupanças
Dinheiro: 475,40€
Cigarros: 2211

Toxinas evitadas
Alcatrão: 22,1117 g

Agora já não recorro muito a ela, mas no início ajudou-me muito. Estava sempre a abri-la e a ver os números a crescerem, para me manter motivada. A primeira semana foi, de longe, a pior. Fartei-me de ler testemunhos acerca do assunto para saber como agir da melhor forma. Passei a beber mais água (é bom, porque ajuda a nicotina a sair do corpo e satisfaz um pouco o vício de boca) e, estupidamente, aboli o café. Porque é que digo estupidamente? É óbvio que um fumador associa o cigarro a certos momentos. Ao final da refeição, a acompanhar o café, a beber um copo com amigos, na pausa do trabalho, etc... O que eu acho é que restringir o corpo da nicotina e das restantes substâncias do cigarro já é violento, quanto mais tirar-lhe a cafeína também! Mas foi o que fiz. Portanto durante uma semana andei miserável e sonolenta. Além disso, ainda passei a ter mais cuidado com a dieta, com um pânico terrível de, além de deixar algo que me proporcionava bastante prazer, ir ficar uma pequena lontra.

Isso não aconteceu, felizmente, mas de facto notei que o metabolismo abrandou terrivelmente no primeiro mês em que deixei de fumar (e, mais uma vez, ter deixado a cafeína também é capaz de não ter ajudado). Nesse mês engordei uns dois quilos, apesar de ter ainda mais cuidado que o normal com a alimentação e o exercício físico. E isso, para quem se preocupa com a sua forma física, é demolidor. Uma pessoa sente que não está a ser recompensada pelo seu esforço, muito pelo contrário. Por isso sim, o primeiro mês foi lixado a sério. Pensava em tabaco a toda a hora, temia ficar um batoque e só queria saber quando é que me ia finalmente sentir uma não fumadora, em vez de alguém em privação.

Bem, a má notícia é que hoje ainda não me sinto como alguém que nunca pegou num cigarro. A boa notícia é que vai ficando cada vez mais fácil. Sinceramente (e, mais uma vez, quem nunca fumou vai achar tolo) eu vejo o quebrar deste vício como um luto. Só que é um luto auto-infligido, o que requer  um certo masoquismo e faz ter vontade de mandar tudo às urtigas e voltar a fumar outra vez. 

Mas após os primeiros tempos de privação as vantagens começam a tornar-se mais claras também. De repente o dinheiro já não foge da carteira, não acordamos na manhã a seguir a uma noitada com os pulmões em brasa, a pele já se sente menos seca e já não nos sentimos um cinzeiro ambulante, como quando fumávamos durante uma tarde inteira e o cheiro do tabaco se entranhava nas mãos, na roupa e no cabelo. Apesar disso, há alturas em que a vontade aperta mais. Como quando se está com amigos que fumam (e com quem se costumava fumar), quando já nem dá vontade de fazer pausas no trabalho (para quê?) ou quando se bebe ou come bem e tudo o que apetecia era um cigarro para colmatar em beleza.

Sei que o meu texto é confuso. Devem estar a pensar 'mas afinal ela está contente por ter deixado de fumar ou não?'. Pois, a questão é essa. É um sentimento ambíguo e, se calhar, é por isso que tanta gente volta. Porque às vezes a vontade de mandar uma baforada num cigarro é tanta que quase anula os argumentos que nos fizeram abandonar o vício em primeiro lugar. Por isso acho que posso dizer que decidi deixar de fumar por impulso, mas continuei por teimosia. Passado pouco tempo comecei a comunicar às pessoas a minha decisão. Namorado, amigos, família e até colegas de trabalho e depois, além dos motivos pelos quais deixei, não queria ser aquela pessoa que não tem palavra, que falhou. Ninguém quer ser essa pessoa. E, apesar disso não ser o mais importante, naquela altura ajudou. 

No outro dia li num artigo do Público que apenas 5% dos fumadores conseguem deixar de fumar sem ajuda e senti-me orgulhosa porque é, de facto, difícil. Mas não acho que quem consegue tenha mais força de vontade. Odeio esse discurso. Odeio que me digam 'ah, eu gostava, mas não tenho força de vontade'. É treta. Não é não ter força de vontade, é não querer o suficiente. Ninguém gosta de sofrer. Eu devo ter gostado tanto de deixar de fumar como todos os indivíduos que o fizeram antes de mim. A questão aqui é só uma: queres o suficiente ou não? Se for não, fuma sem sentimentos de culpa. Foi o que eu fiz enquanto fumei. Andar com um pé fora e outro dentro nunca fez bem a ninguém (e as sequelas para a saúde são as mesmas, independentemente do sentimento de culpa).

Uma vez li que, se fosse possível, todos os fumadores optariam por acordar no dia seguinte como não fumadores. Faz sentido. A questão é que um fumador não se imagina sem fumar. É um vício lixado que se entranha na rotina e a ausência dele parece tirar o significado a uma série de coisas, como a ida a uma esplanada para beber uma cerveja ou uma boa noitada. Eu senti isso no início e ainda sinto em parte, apesar de estar mais atenuado. A questão é que vai sempre custar. Com ou sem adesivos, com hipnoterapia, acupunctura, desporto... Quem se 'mete nisto' tem de ter noção disso. Vai custar e não há uma meta (como o dia da asneira para quem faz dieta). E não vai haver um dia em que se faz luz e no outro se acorda sem querer mais o tabaco. Não, no máximo há um dia em que se decide quebrar com o vício. Mas vai apetecer na mesma! 

É por isso que estou a partilhar a minha experiência. Porque às vezes irrita-me quem diz que fazer dieta, deixar de fumar ou qualquer outro tipo de desafio que implique esforço e sacrifício é fácil. Depois quem não consegue ainda se sente pior, porque uma coisa que para uns é fácil se afigurou como um esforço dantesco. Não é fácil, nada mesmo, mas sei que vale a pena. Por isso, a quem o vai fazer, força. Vê vídeos anti-tabágicos (que eu evitava e passei a ver quando deixei), lê relatos de quem deixou e convence-te, tal como eu, que tudo passa, desde que se dê tempo suficiente para se deixar de sentir a falta.

14 comentários:

  1. Deixei de fumar no dia 02fev2014. Depois de 15anos a fumar cerca de um maço por dia, escolhi o dia, e lutei muito. Engordei uns 7kg mas nao voltei a tocar no cigarro. Hoje, passado quase 2 anos posso dizer-te que todos os dias me apetece fumar mas habituamos-nos a lidar naturalmente com isso.
    A minha motivação chama-se Miguel e felizmente nunca viu o Pai fumar.

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    1. É a melhor motivação :) O peso é tramado de controlar nos primeiros tempos! Já conseguiste recuperar?

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  2. Eu parei quase há 5 meses (sei os dias exactos mas a contagem é tão doente que nem vale a pena referir). Compreendo bastante bem o que estás a dizer. Parabéns, todos os dias são uma vitória.

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    1. Parabéns a ti também, Melissa! Não sentes que está cada vez mais fácil? Os piores momentos, para mim, são mesmo quando bebo uns copitos... Como na passagem de ano.

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  3. Sei bem o que isso é, tudo isso na verdade. Deixei de fumar há quatro anos porque queria um bebé e não queria ser uma mãe fumadora, sempre me fez confusão ver grávidas a fumar. Na verdade foi o que me ajudou a deixar mas ainda hoje, volta e meia, tenho "saudades"... ;-) Fica mais fácil querida! beijinhos <3

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    1. Patrícia, que seja este ano que te conheço! De facto acho que não deve haver motivação maior que essa. Não só pelos danos que se faz às crianças, mas também pelo exemplo que se dá. Qual é a legitimidade que um pai fumador tem para dizer ao filho para não ir pelo mesmo caminho? 4 anos é uma grande vitória, parabéns! :D Mas sim, infelizmente acho que o bichinho fica sempre lá. Beijinho grande

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  4. Obrigada pela inspiração!
    App instalada.
    Dia 1 quase completo! :)

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    1. Fico muito, muito feliz por saber isso, Marta :) Muita força e fé em ti mesma, sim? Prometo que vai ficando mais fácil. Beijinho

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  5. Deixei de fumar há sensivelmente 3 anos na pior fase de um estudante, a semana de entregas e exames finais. Concordo contigo quando dizes, é sempre difícil, a tentação está sempre lá e nunca desaparece. Mas quando temos consciência que o fazemos por nós, sabemos que só depende de nós. Porque toda a gente nos congratula quando conseguimos, mas ninguém acredita que seríamos capazes até o conseguirmos fazer.
    Sempre fui badocha, e quando deixei de fumar decidi tornar me saudável e ao mesmo tempo alvo de chacota de todo o pessoal amigo, mas o resultado? Perdi 20kg em 8 meses, e surpreendi toda a gente, mas melhor que isso foi sentir me bem comigo mesmo, e perceber que somos fascinantes quando ambicionamos realmente algo. Força nessa luta, que é só tua e te vai trazer só boa disposição sempre que acordas mais uma sem tabaco.

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    1. Uau, Bruno! Deixar de fumar e perder peso. Os meus parabéns! Ter esse auto-controlo não é fácil e exige muito de uma pessoa, mas acredito que neste momento te sintas orgulhoso e recompensado todos os dias. A minha luta está-se a tornar cada vez mais fácil. Há alturas em que me dá uma certa nostalgia, mas sei que a vontade de não passar por tudo isto outra vez não me vai deixar voltar a pegar num cigarro.

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  6. Deixei de fumar ha cerca de um ano. Identifiquei-me muito com o que disses-te mas eu ao contrario de ti fiz tudo o que fazia antes mas sem o cigarro. Obrigava-me a fazer as coisas mais vezes para vencer a barreira psicológica. Ao inicio parecía que me estavam a dar facadas :). Depois veio aquela altura do vamos fumar um cigarro para celebrar... e acendi o cigarro e tentei... mas tossi tanto e soube-me tao mal que o apaguei e nao fui capaz... desde ese dia aquele bichinho que estava sempre latente desapareceu. Hoje incomoda-me o fumo, o cheiro e sinto-me como um não fumador. Fumei durante 18 anos um maco por dia. Mas é como dizes temos de querer para conseguir e pessoalmente nem acho que o pior seja a nicotina mas sim o psicológico e a associacao do cigarro aos momentos do dia a dia. A coisa que me dá mais felicidade hoje é que já não tenho de andar nos aeroportos a procura do aquario para fumar!
    Força nessa luta :)

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  7. Olá,deixei de fumar no dia 2 de outubro. No início foi muito dificíl ainda o é claro. Deixei também como tu de um dia para o outro aliás tudo o que disseste acontece comigo. Mas olha engordei 7 k e ainda não fez 1mes. Mas estou muito contente comigo porque foi por mim que deixei eu quis. Agora é continuar é claro fazer exercício para emagrecer.


    Muito obrigado pelo teu testemunho

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