O oposto de depressão não é felicidade, mas sim vitalidade.
Andrew Solomon




Recentemente foi lançado um livro que tem feito sucesso pelo mundo fora e fala de um tema que, surpreendentemente, continua a ser tabu: a depressão. Andrew Solomon é o autor de O Demónio da Depressão: o atlas da doença, um tomo de 812 páginas sobre a doença, possíveis causas e tratamentos e recolha de testemunhos reais, que já lhe valeu o prémio National Book Award em 2001 e uma nomeação para o Pulitzer em 2002. O próprio autor sofre de depressão profunda e reincidente há mais de vinte anos.

Quando vi o livro na Fnac despertou-me imediatamente a vontade de o ler. Por curiosidade mórbida, perguntam vocês? Não. Eu própria passei por isso. Há sete anos, em 2009, fui diagnosticada com depressão major e, por todos os motivos, não foi um período nada fácil de ultrapassar. Por isso decidi falar sobre isso aqui. Porque esta doença não deve ser encarada com vergonha, mas sim como qualquer outra patologia. 

Tudo começou quando saí de casa para ir estudar para a faculdade em Lisboa. À partida ia correr tudo bem. Tinha entrado para o curso que queria e tinha vários amigos e familiares na cidade. Também tinha muitas expectativas acerca da vida académica e da liberdade que passaria a ter. Expectativas demasiado elevadas e que rapidamente me deixaram frustrada e triste.

Para começar não sou uma pessoa que lide particularmente bem com a mudança. Estava habituada a morar num sítio pequeno, com os meus pais e as minhas duas irmãs e a estar com os meus amigos praticamente todos os dias. Quando fui para Lisboa fui viver com a minha avó, o que já de si representou uma mudança significativa. Juntou-se a isso um curso que não correspondeu às expectativas, uma vida social um tanto ou quanto desanimadora  e uma solidão generalizada e, em pouco tempo, dei por mim um tanto ou quanto perdida.

Lembro-me que os sintomas chegaram lentamente, mas foram-se instalando. Comecei a ter dificuldades para adormecer, que em duas semanas se agravaram e culminaram num acordar de madrugada e, mais tarde, em noites passadas em branco. Depois veio uma vontade de chorar repentina, que me assolava sem dó nem piedade, tanto podia ser em casa como numa paragem de autocarro. E mais tarde comecei a sentir que não tinha nada para dizer às pessoas. Eu, uma pequena gralha, que adora tagarelar e socializar, sentia que não tinha nada de bom para partilhar com o mundo.

Ignorei tudo. O choro espoletado do nada, as insónias galopantes e a angústia profunda. O que foi um erro. Porque em duas semanas bati no fundo. Perdi completamente o apetite e com isso foram-se seis quilos numa semana. O sono foi-se na totalidade. Lembro-me de tentar de tudo para adormecer, até de ler o livro de Semiótica para ver se me aborrecia. Nada me fazia pregar olho. Lembro-me de ir para a faculdade já com umas olheiras até ao chão e de me perguntaram se tinha feito noitada a estudar. Yeah, right. As noites eram uma tortura. Levantava-me e andava de um lado para o outro na casa da minha avó, qual animal enjaulado com perturbações de ansiedade. Depois de duas semanas a dormir três a quatro horas por noite, seguidas de três noites inteiras sem dormir um segundo que fosse, decidi ir para casa dos meus pais.

Mal cheguei a casa, pedi aos meus pais para me levarem ao hospital. Não dormir foi das maiores torturas físicas por que já passei até hoje. É um cansaço extremo tal que raia a dor. Nessa noite fui ao hospital com a minha mãe e a minha irmã e passadas não sei quantas horas, que me pareceram dias, fui 'atendida'. O nosso SNS está tão preparado para lidar com a depressão quanto isto. Não só o médico que me atendeu não queria acreditar que eu estava há três dias inteiros sem dormir, como afirmou "isso não é possível", insinuado que eu estava a inventar tal coisa. Não bastando isso, o médico que me prescreveu a medicação ainda me disse que ir para a faculdade não era motivo para ter depressão. "Olhe desculpe lá se o meu motivo não me qualifica a entrar para a liga dos deprimidos", apeteceu-me dizer-lhe.

O único alívio que encontrei no hospital foi quando me sedaram e me puseram finalmente a dormir. O sono mais doloroso que tive até hoje. Parecia que o meu corpo se tinha esquecido de efectuar esse processo natural. Quando digo dormir refiro-me a uma hora e pouco, o que já é um feito, dado que estava numa sala com mais umas quinze pessoas e mais barulhenta que o Bataclan na noite do atentado. 

No hospital passaram-me medicação e marcaram-me uma consulta de psiquiatria. Então fizeram tudo o que deviam, certo? Sim, tirando o facto disto ter acontecido no início de Outubro de 2009 e a consulta ter sido marcada para finais de Março de 2010 (data em que, ironicamente, eu já estava curada). Bem, fui para casa, supostamente diagnosticada e 'tratada', mas o problema estava longe de estar resolvido.

Um dos muitos problemas desta doença é que é difícil acertar com a medicação. Como referi anteriormente, perdi o sono e o apetite. Assim como a vontade de fumar e a de fazer qualquer outra coisa. Com a primeira medicação não só não dormia, como ainda tinha menos vontade de comer. Lembro-me de um dia em que à noite me apercebi que não tinha comido nada o dia todo e levei duas colheres de sopa à boca, até me sentir enjoada e parar.

A falta de sono, não estando resolvida, acabou por me deixar num estado de ansiedade tal que tremia tanto como um toxicodependente ressacado. Era verdadeiramente aflitivo de assistir. Só melhorava ligeiramente quando tomava um ansiolítico. Dado o meu estado de nervos, cheguei a ter mais que um ataque de pânico. Fui a outro médico para pedir alguma coisa que me pusesse a dormir. Se me tivessem dado uma anestesia para cavalos eu teria aceite, tal era o desespero. Mas não, deram-me uns comprimidos milagrosos. Stilnox, mais conhecido por Ambien, um hipnótico potente que faz dormir em segundos. A parte pior é que não prolonga o sono. Por isso conseguia dormir umas duas horas de cada vez.

Para acertar com a medicação fui a um neurologista que me receitou uma série de coisas. Tomava um antidepressivo de manhã, uns três ansiolíticos durante o dia e outro antidepressivo à noite, para me ajudar a dormir. Como se não bastasse, ainda tinha outro comprimido para momentos de maior ansiedade. Incrivelmente, não me sentia mole nem dopada. Acho que sou um osso duro de roer. Só no final de Novembro é que consegui dormir uma noite completa. Demorou muito tempo até voltar a adormecer espontaneamente.

Ao longo deste processo ainda fui acompanhada por outro médico, que também é padre e psicólogo e uma das pessoas mais extraordinárias que já conheci e uma psicóloga amiga dos meus pais, que me ajudou sem levar nada em troca. E o que quero dizer com isto? Muito pouca gente tem a minha sorte. Se os meus pais não tivessem outra possibilidade senão apenas recorrer ao SNS, se calhar ainda hoje estaria doente. Recordo que a minha consulta foi marcada tão tarde, que na altura já não foi necessária porque eu já estava completamente curada!

Mas a depressão continua a não ser uma doença reconhecida, porque não é visível, porque o termo é empregue levianamente. Estar deprimido não é estar muito triste, é realmente uma doença cerebral, que se traduz numa queda significativa de neurotransmissores. Estes são essenciais para todas as funções cerebrais, para pensar, raciocinar e ter ânimo para empregar as tarefas básicas do dia-a-dia.

No entanto, e apesar de estarmos tão evoluídos, continua a existir um enorme estigma à volta desta doença, que é vista como coisa de gente fraca, maluquinhos, ou preguiçosos que não querem trabalhar. Eu própria recordo-me de ouvir atrocidades como:

- Inês, tu estás com uma depressão, não estás com cancro.
- Tens de ser uma pessoa mais forte.
- Eu não acredito na depressão.

Isto em pleno século XXI e vindo de pessoas informadas! Ainda por cima no meu caso, que tinha sintomas tão gritantes. Depois do episódio de não dormir e de correr médicos, estive umas duas semanas sem ir à faculdade e ainda tentei regressar. Quando voltei tinha perdido tanto peso que me perguntaram se estava doente. A meio da primeira aula desatei a chorar e fui-me embora. Acabei por desistir do curso. Mesmo que quisesse não teria conseguido frequentá-lo nessa altura.

Foi uma longa jornada. Tive a sorte do tratamento ser bem sucedido e de, após seis meses, ter deixado toda a medicação por completo. Tive a sorte de voltar a ser a pessoa que era, talvez com mais maturidade e uma força recém-adquirida. Mas foi o momento mais difícil da minha vida. Ninguém faz ideia do estado de infelicidade generalizado a que se tem de chegar para não se ter prazer em nada. Nada, nem em satisfazer as necessidades básicas. Recordo-me de estar na cama, inerte, sem qualquer vontade de me levantar ou de passar horas sentada simplesmente a olhar para o vazio. É como se fosse um morrer em vida.

Recordo-me do desespero constante, de ter a cabeça tão cansada que não conseguia ler duas linhas, da falta de auto-estima que me fazia sentir abaixo de excrementos. Invejava toda a gente, qualquer forma de vida que não a minha. Sentia-me culpada por estar assim, um vegetal, a companhia mais desoladora do mundo. Foi só quando o tal médico de que já falei me disse que tinha de ser a minha melhor amiga que se fez luz. Parece algo simples, mas naquela altura foi uma epifania para mim. Todos os dias repetia a mesma lengalenga a mim mesma. Que não valia nada, que era culpada por estar assim, que devia ser anormal por me sentir tão deprimida quando tanta gente passava por desgraças a sério.

Hoje sinto o contrário. Sinto-me orgulhosa e sortuda por ter conseguido ultrapassar uma doença tão avassaladora. E sinto que há muita coisa que devia mudar. Porque quem não tem possibilidades de recorrer à medicina particular também tem direito a usufruir de um bom tratamento e isso não acontece, de todo, no serviço público. 

Outro mito que acho importante esclarecer é que, tal como certas pessoas acham que depressão é apenas tristeza, também consideram a medicação evitável. Posso afirmar, com todas as certezas, que se não fosse pela medicação eu já não estaria aqui hoje. E isto foi-me dito por uma médica que, quando lhe perguntei se poderia morrer por estar tanto tempo sem dormir, me respondeu 'com a sua idade não'. Por isso não, a medicação não é supérflua e não se vai lá com boa alimentação, desporto, acupunctura ou mézinhas. Também não seria esse o tratamento que adoptariam se tivessem um cancro, pois não?

É importante desmistificar isto, porque existe preconceito em todo o lado. Eu própria o senti nos meus círculos mais próximos. E quando esse preconceito parte dos próprios portadores da doença, o diagnóstico naturalmente não é tão célere, muito menos a cura. Daí estar a partilhar a minha experiência. Penso que é importante que quem já passou ou passa por isto que assuma e ajude a desmistificar uma das doenças mais debilitantes da sociedade ocidental. 

You don't think in depression that you've put on a grey veil and are seeing the world through the haze of a bad mood. You think that the veil has been taken away, the veil of happiness, and that now you're seeing truly. 
Andrew Solomon