Isto de andar à procura de emprego

13:41:00 Inês de Almeida 7 Comments


Devil Wears Prada (2006)

Acabei o meu estágio profissional no início de Outubro. Para me precaver perante o cenário tenebroso que eu sabia que me esperava, comecei a mandar currículos em Março. Estamos no final de Janeiro e ainda só fui a uma entrevista. Mas esta semana fui chamada para quatro sítios. Quatro! 'Então de que te queixas, Inês?' Pois, vamos então esmiuçar que quatro 'fabulosas' oportunidades foram estas:

1 - Alguém de uma empresa para a qual não me recordo de me ter candidatado - JR Marketing Solutions - liga-me na segunda-feira a perguntar se quero marcar entrevista. Sou apanhada de surpresa porque não me lembrava mesmo de ver o nome desta empresa em lado nenhum, mas calculei que fosse de um daqueles anúncios que não específica a entidade empregadora (de que eu sou fã - not). Fui procurar algumas informações e deparei-me com um site com relativo bom aspecto e uma página de Facebook francamente pobrezinha, pejada de citações acerca de empreendedorismo e afins. Torci o nariz, mas parti do pressuposto que a página era gerida por alguém de gosto duvidoso e dei por encerrado o assunto. 

No dia seguinte, a conselho do meu namorado, fui pesquisar mais informações da empresa e deparei-me com isto e isto. Basicamente é uma 'empresa' que consiste na venda em pirâmide de artigos (muitas vezes falaciosos) porta a porta. Mas nada disso é explícito e acenam-nos com o isco de uma vaga na área da comunicação. Yeah right. Escusado será dizer que não meti lá os pés. Ontem, por coincidência, encontrei uma rapariga que conheço que passou há pouco tempo por uma experiência semelhante com uma empresa situada no LX Factory. Por isso aconselho a que tenham atenção.

2 - Respondi a uma oferta no site Carga de Trabalhos da Grafe Publicidade a pedir um jornalista para full time, estágio curricular ou estágio profissional. Na oferta não se encontrava explícito que apenas se destinava a estágio, mas depois de marcar a entrevista não quis levar banhada e telefonei a perguntar. A resposta era o que temia, o que me enfurece em todos os sentidos. Em primeiro lugar, no meu currículo está patente que já fiz estágio curricular e estágio profissional. O que é que esperavam? Que quisesse trabalhar para aquecer só porque sim?

Depois o que me faz extrema confusão também é o facto de empresas lucrativas (pelo menos é a ideia que dá no site deles - com tantos trabalhos expostos) quererem aproveitar-se de mão-de-obra gratuita sistematicamente. Sinto mesmo que a minha geração é feita de novos escravos, uma situação camuflada por desculpas como "os tempos não estão fáceis", "tens de provar o que vales", "se tu não quiseres há vinte atrás". Isto é inadmissível e eu por princípio, e também porque não posso dar-me a esse luxo, recuso-me plenamente a trabalhar para quem quer que seja à borla.

3 - Fui chamada para o casting da RFM para 'ficar com a cadeira' da Mariana Alvim. A situação está tão má ao ponto de se fazer todo um teatro à volta desta oportunidade fabulosa, que consiste em nada mais nada menos do que um estágio de quatro meses com a remuneração de 600€ brutos por mês a recibos verdes. Uau, que mega oportunidade! Eu estou a gozar mas ontem lá fui, como tantos outros, esperar umas três horas em pé para ir dois minutos a uma salinha e ser rapidamente avaliada.

Não sei o que correu mal, mas não passei. Só fui chamada já passava das 22:30 e já estavam a despachar toda a gente. Quero acreditar que foi um dos factores. De qualquer forma, são centenas de pessoas para um lugar, portanto já fui para lá sem expectativas nenhumas. Para mim o mais irónico disto é toda a máquina montada à volta desta vaga que, apesar da visibilidade e da experiência que pode dar, está longe de ser a oportunidade de uma vida. Digo eu.

4 - E para finalizar esta semana tão marcada por oportunidades risonhas e vagas de sonho (cof cof), fui chamada para uma entrevista na Hi Fly. Para quem não sabe, é uma transportadora europeia que faz Wet Leasing, ou seja, fornecimento de aviões com tripulação, manutenção e seguros incluídos. Bem, isto significa que uma comissário de bordo que trabalhe lá tanto pode passar três meses em Portugal sem trabalhar, como depois ir dois meses para qualquer outro lugar no planeta. Ou pelo menos foi isto que me disseram.

Apesar de não estar interessada num modo de vida tão instável, vou à entrevista para de facto perceber como isto funciona. Se for como me descreveram, uma pessoa nunca sabe a quantas anda. Tanto trabalha não sei quantos meses seguidos, como fica sem trabalhar outros tantos. Já para não falar de passar tanto tempo fora do país. Se fosse para isso já tinha emigrado, mas bom. Logo se vê.

E por enquanto é isto, uma novela rocambolesca para ver se encontro o meu lugar ao sol. Kind of. Este processo é tão cansativo e desgasta tanto a auto-estima que quase invejo os nossos muito longínquos antepassados que viviam com o que colhiam das árvores. Do meu círculo de amigos, uns quantos emigraram e deram-se bem (na questão profissional, pelo menos), outros estão cá mas com empregos precários e uns poucos tiveram a sorte, e mérito também, de conseguir boas oportunidades. 

Eu estou francamente cansada desta busca incessante. Passei por isto antes de ir para estágio profissional e acho que já me tinha esquecido do quão desgastante pode ser. No entanto, the show must go on, não é assim? Prometo manter-vos actualizados acerca da minha demanda que, pelos contornos que adquiriu esta semana, está mais para uma novela mexicana que outra coisa.


Bridget Jones's Diary (2001)

7 comentários:

  1. Ipsis verbis quanto ao casting da RFM. 5 horas de espera para 3 minutos de "entrevista" pontuada por apenas duas perguntas: "É licenciado em Comunicação Social ?" e "Quer ser guionista?!?" como se daí viesse mal ao mundo. Para não dizer que toda a geringonça montada parecia mais um favor da RFM à Randstad que o contrário.

    Mas folgo em saber que não sou o único a remar contra a maré. Infelizmente, convém dizer.

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    1. A Randstad provavelmente agradece por ter esta 'maçã sumarenta' para oferecer no meio de tantas vagas para Call Center :P Achei tudo aquilo uma fantochada, mas neste contexto não me posso dar ao luxo de dispensar possíveis oportunidades. A mim também me perguntaram se era licenciada em Comunicação Social, o porquê de me deverem escolher a mim e o que achava da equipa do Café da Manhã. Enfim, perda de tempo e dores de pernas foi o que retirei dali! Não és o único a remar contra a maré, não. Infelizmente pouca gente fala disto. É já quase um dado adquirido, o desemprego jovem. Desejo-te muita sorte na procura!

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  2. Encontrei Por acaso este texto e veio mesmo de encontro ao que estou a passar, com a diferença de que estou ainda à procura de estágio profissional... desde Outubro. Vagas encontro muitas... entrevistas já fui prai a umas 10, e nada... o que mais me chateia é ver anúncios para a mesma vaga na mesma empresa a serem repetidos durante meses e meses e nem uma resposta aos e-mails enviados. Bastava um não, mas pelo menos servia para fechar aquela porta. É mesmo decepcionante e sinceramente já não consigo manter o espírito muito positivo face a tantas negas. Mas é como escreveste,há que ser persistente. Boa sorte!

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    1. Sandra, eu também esperei bastante para começar o meu estágio. O pedido da empresa foi processado em Janeiro de 2014 e o meu estágio começou a 18 de Setembro desse ano. Não sei como está o panorama actualmente, mas na altura todos os estágios andavam atrasados. Também me revolta essa situação que apontas. Há empresas, como a revista Happy, que estão constantemente a colocar anúncios para a mesma vaga. Eu respondi, pediram-me artigos do meu portefólio e ideias para peças integradas na revista Happy, eu respondi e nunca mais obtive qualquer tipo de reacção. Percebo a tua frustração e partilho-a. Honestamente, não me sinto nada positiva em relação a isto tudo, mas não há mesmo outra solução senão continuar a tentar. Desejo-te muita sorte também!

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  3. Bem, parece que estou a ler os meus pensamentos. Isto é agonizante. Eu fui a uma entrevista no LX Factory, a People X (deve ser a mesma empresa que a tua amiga te referiu) e, confesso que nunca me senti tão envergonhada na minha vida. A pessoa que me entrevistou era uma senhora com os seus 45 anos, com chinelos no pé, que se arrastavam ao longo da sala e a mascava pastilha elástica como se tivesse a fazer um concurso de quem fazia o balão maior. Sai de lá a pensar "mas que raio se está a passar?". De facto, é incrível. Como falo desta, falo de outras. A Lemonade, também. Consegui ir a todas as entrevistas, sendo que fiz sempre o trabalho de casa. Muitas vezes senti-me destruída e quase asfixiada mas desistir? nunca. Saí da minha área de estudo há um ano e tentei ir atrás de um sonho. Estou a fazer um curso técnico e arranjei trabalho na Fnac. Diga-se que não é a situação ideal mas, falo do meu caso, há muito que deixei de pensar nas coisas no longo prazo. É insensato mas o mercado de trabalho arrasa com todas as nossas expectativas. Muita sorte para todos.

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    1. Desconhecia completamente essa praga de pseudo empresas de Marketing! É incrível e espero bem não ser 'apanhada' por mais nenhuma. Espero que brevemente possas voltar a fazer planos a longo prazo :) Vamos tentar pensar que nos espera algures a nossa oportunidade de ouro. Eu tenho de pensar assim, senão acho que dou em maluca. Boa sorte para ti também, Melissa!

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  4. Ola Inês! Fiquei interessada na entrevista que tiveste na hifly... Como foi? O que perguntaram? Estou a concorrer e gostava de saber uma opinião de alguém que já tenha ido. Obrigada :)

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